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AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM

Celso Vasconcellos

Celso Vasconcellos*

1.    Em sua opinião, como seria a avaliação ideal na escola?

Celso Vasconcellos - Seria aquela que possibilitasse a tomada de consciência do(a)s:

l Avanços: apropriar-se dos acertos, pois, além de reforçar o caminho que se está fazendo, fortalece a autoestima e, assim, prepara novas aprendizagens (significa uma ampliação da zona de desenvolvimento proximal);

l Dificuldades: enquanto Homo Sapiens Sapiens, não nascemos prontos, nem programados; fazemo-nos por nossa atividade; ao agir, podemos acertar ou errar. Nosso erro pode prejudicar a nós mesmos, o outro e/ou o meio, daí a necessidade da tomada de consciência, bem como o compromisso com sua superação;

l  Potencialidades: muitas vezes, no decorrer do processo de ensino-aprendizagem, o aluno revela aspectos que vão além dos objetivos previamente estabelecidos, além certo ou do errado. Esta dimensão da avaliação corresponde àquela histórica e ontológica vocação de ser mais a que Paulo Freire se referia, àquele desejo que temos de cada dia nos tornarmos seres humanos melhores.

 

2.Qual é o papel da avaliação no ambiente escolar?

Celso Vasconcellos - Entendo que o papel da avaliação é ajudar a escola a cumprir sua função social, que passa por três tarefas básicas: 1)Aprendizagem Efetiva; 2)Desenvolvimento Humano pleno; 3)Alegria Crítica (docta gaudium), de cada um e de todos os educandos.

 

É preciso romper uma verdadeira lógica infanticida que existe na sociedade como um todo e na escola, em particular. Parece que a intenção de muitos, ainda que de forma não tão consciente, é acabar com a infância. Em termos de sociedade, além de formas mais ostensivas como a pobreza, a exploração do trabalho infantil, o abuso sexual de crianças, há aquelas mais sutis, como por exemplo a venda de sutiã com enchimento para meninas de 6 anos! (Folha de São Paulo, 7 de abril de 2011). Que mundo é este? Aonde se quer chegar?

 

Sabemos o que está por detrás: quanto mais cedo se erotizar uma criança, mais cedo ela se torna consumidora dos produtos da mídia. Isto é um crime! Deixemos as crianças serem crianças, viverem sua infância tendo respeitada sua subjetividade, sua dignidade.

 

Pensando no âmbito da escola: uma das grandes queixas dos professores dos anos mais avançados de escolarização é a falta de interesse dos alunos, sendo que o interesse é essencial para a aprendizagem. Por outro lado, quando observamos as crianças na Educação Infantil, de um modo geral, são vivas, curiosas, altamente interessadas. O que acontece neste “meio de campo”? É certo que existe a influência da família, da sociedade, mas como não reconhecer a participação da escola neste processo de sufocar —insistimos: de forma mais ou menos consciente— o interesse da criança? Como uma criança de 6 anos pode manter vivo seu interesse ficando por 200 dias, 800 horas sentadinha, uma atrás da outra, tendo por horizonte o pescoço do coleguinha da frente? Quando se inicia o Ensino Fundamental, qual é o discurso? “Agora é sério, agora para valer, acabou o lúdico, acabou a rodinha, acabou o parquinho”. Qual é a prática? Um aluno atrás do outro, o professor falando, falando, falando, o aluno ouvindo, ouvindo, ouvindo (ou fingindo que ouve). E tudo isto, mais uma vez, em nome do “bem da criança”…

 

Outro aspecto: que lógica é esta de aprovar ou reprovar uma criança nos anos iniciais do Ensino Fundamental? A criança não vai —não deve ir— para a escola para ser aprovada ou reprovada, mas para ser ensinada, para aprender, desenvolver-se, ser feliz, como eu disse. Há em muitas cidades do Brasil (e também do exterior) leis proibindo que uma criança menor de 10 anos ande sozinha no elevador, por não ter discernimento suficiente para agir em caso de emergência. Ora, uma criança não pode responder por andar sozinha no elevador, mas pode responder sozinha por sua não-aprendizagem na escola, sendo reprovada. Que lógica é esta? A avaliação não é para punir ninguém, mas, se fosse para reprovar, onde ficaria o Estado, os Meios de Comunicação, os Políticos, os Dirigentes dos Sistemas de Educação, os Sindicatos, a Família, os Gestores Escolares, os Professores? Por que só a criança assume a responsabilidade —e na forma de castigo— de algo que envolve tanta gente?

 

A cultura da reprovação é tão forte que há pais de alunos, de Redes de Ensino que adotam a Progressão Continuada ou os Ciclos, que pedem na Justiça que o filho seja reprovado. Vejam a que ponto chegamos… Não se vê os pais entrando na Justiça para que o Estado faça concurso e efetive grande parte do professorado que tem contrato provisório, para que o Estado complete o quadro de funcionários das escolas (inclusive professores), reveja a formação inicial do professor, garanta a formação permanente, garanta o espaço de trabalho coletivo na escola, garanta condições mínimas de trabalho, pague um salário digno, exija que a escola tenha uma pedagogia apropriada a cada faixa etária, etc., mas, com melhor das boas intenções (afinal, foi assim que foram formados também), pedem que o filho repita de ano.

 

Que fique bem claro: com a mesma ênfase que criticamos a reprovação, criticamos também a aprovação! Defendemos o que, então? A ensinação (aprendizagem, desenvolvimento e alegria crítica)!

 

3.O que o professor precisa fazer para que a avaliação cumpra esse papel?

Celso Vasconcellos - Parafraseando Winnicott, podemos dizer que o professor deve ser suficientemente bom, qual seja, bom o bastante para exercer sua atividade. Não se trata de ser um super-herói, mas um profissional qualificado para exercer uma das atividades mais complexas do ser humano que é ser educador, ser professor (daí a necessidade de que seja muito bem formado, valorizado, remunerado, etc.). Uma das exigências é que o professor compreenda o enraizamento histórico-cultural de sua atividade.

 

O conceito de avaliação é relativamente simples: um juízo de qualidade/valor sobre dados significativos da realidade, visando a tomada de consciência de seus atributos (positivos, negativos ou potenciais), e a ação para seu aperfeiçoamento, se necessário ou desejável. O problema é que historicamente a avaliação tem servido para outras funções que se tornaram “naturais” (selecionar os “aptos”, “preparar para a vida”, controlar a disciplina, etc.). Isto provoca confusão em muitos professores, uma vez que querem uma coisa, fazem outra, e têm muita dificuldade em se darem conta desta contradição (há o mal-estar, mas não a compreensão).

 

Há aqui a questão dos níveis de consciência que convivem no sujeito: a consciência superficial e a consciência enraizada. Comumente a concepção desejada (de avaliação como emancipação) é superficial, enquanto que a concepção equivocada (avaliação enquanto classificação e exclusão) é profunda, uma vez que o professor vem convivendo com ela desde os seus tempos dos bancos da escola elementar.

 

É preciso, pois, uma tomada de consciência e uma tomada de posição, o que vai fazer com que o professor tenha um outro olhar sobre o aluno, preste  atenção nele visando ajudá-lo. Afinal, como diz Mário Quintana, quem não compreende um olhar, tampouco compreenderá uma longa explicação

 

4.Essa proposta de  avaliação  tem que ser  implantada na escola de forma gradual ou não? Ou seja, como implantar isso na prática?

Celso Vasconcellos - Em função da assimilação das distorções históricas, tanto por parte de pais quanto de professores, defendo que implantemos aos poucos, a partir dos anos iniciais do Ensino Fundamental (considerando que na Educação Infantil não temos estas distorções da avaliação).

 

5.O senhor defende que é preciso que a escola mude a intenção com a qual se avalia. O que senhor chama de intencionalidade?

Celso Vasconcellos - Entendo que a intencionalidade é a categoria chave no processo de mudança da avaliação: para quê, efetivamente —para além dos discursos e das intenções genéricas—, avaliamos? Para qualificar ou para classificar e excluir? Costumo fazer um jogo com a palavra intencionalidade: a intenção se tornando realidade, justamente para escapar às boas intenções genéricas (das quais, segundo o bom senso do senso comum, o inferno está cheio).

 

O desafio é trocar os “óculos de Gauss” (olhar classificatório, muito bom para fenômenos da natureza, mas lamentável para fenômenos em que há intervenção da intencionalidade humana) pelos “óculos de grau” (o olhar que quer ver).

 

6.Como é possível avaliar  o modo como cada aluno aprende?

Celso Vasconcellos - O professor, como profissional do ensino, deve saber como se dá a aprendizagem humana como um todo. Fica muito difícil acompanhar cada aluno se o educador não tem o domínio do processo básico de aprendizagem. Há aqui aquela dialética do universal e do particular: não vai ser a primeira vez na história que um ser humano vai aprender algo, mas será a primeira vez que o Pedro César aprenderá aquele determinado conceito. Para que o aluno aprenda (na verdade, para que qualquer ser humano aprenda, a partir do momento em que desenvolveu a função simbólica – algo que costuma se dar lá pelos 2 ou 3 anos de idade), seis exigências essenciais devem, em alguma medida, ser supridas :

l Capacidade Sensorial e Motora + Capacidade de Operar Mentalmente do Sujeito

l Conhecimento Prévio do Sujeito

l Acesso ao Objeto/Conteúdo (Informação Nova)

l Querer Aprender aquele Objeto

l Agir sobre o Objeto de Conhecimento

l Expressar-se sobre o Objeto.

 

Ora, o expressar-se sobre o objeto, que é uma exigência para que se complete o ciclo do conhecimento, é também a oportunidade de o professor acompanhar o processo de construção do conhecimento por parte do aluno, qual seja, para avaliar como o aluno está aprendendo, o professor deve possibilitar várias formas de expressão (fala, escrita, modelo, maquete, dramatização, desenho, esquema, etc.). Todavia, inicialmente esta expressão deve se dar num contexto de ampla liberdade ou, em outros termos —e para sermos bem diretos—, sem valer nota! Quando o aluno sabe que o que vai expressar estará vinculado à sua aprovação/reprovação, por uma questão de inteligência da sobrevivência, diz o que entende que o professor quer ouvir e não aquilo que de fato pensa, pois poderá ser punido se o fizer de uma forma considerada “errada”. Assim, impossibilita ao professor ter acesso à sua efetiva forma de pensar, à elaboração que está realmente fazendo do conhecimento.

 

O clima de respeito em sala de aula, portanto, tanto por parte do professor quanto dos colegas (é interessante notar como a avaliação classificatória e excludente é fonte de bullying), é fundamental para a aprendizagem.

 

* Prof. Celso dos Santos Vasconcellos, Doutor em Educação pela USP, Mestre em História e Filosofia da Educação pela PUC/SP, Pedagogo, Filósofo, responsável pelo Libertad - Centro de Pesquisa, Formação e Assessoria Pedagógica. Autor de vários livros, entre eles Concepção Dialética-Libertadora do Processo de Avaliação Escolar;  Avaliação: Superação da Lógica Classificatória e Excludente: do “é proibido reprovar” ao é preciso garantir a aprendizagem; Avaliação da Aprendizagem: Práticas de Mudança - por uma práxis transformadora. www.celsovasconcellos.com.br

 

16 comentários para “AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM”

  1. Francisca A. Vidal disse:

    Maravilhosa a entrevista do professor Celso Vasconcellos. Tenho lido e aprendido muito com ele. Encontrar uma entrevista dele aqui no site do Instituto foi gratificante. Obrigada.

  2. MARIA CRISTINS disse:

    PARABENIZO O PROFESSOR PELA SUA CAPACIDADE INTELECTUAL

  3. Marli Sana disse:

    Sempre é bom ler o que Educador Celso escreve,se todos fizesse pelo menos um pouco do que aprendemos com suas leituras, a educação estaria bem melhor. Espero, sempre encontrar entrevistas com o professor Celso nesse site, parabéns para quem teve a idéia e a iniciativa de convidá-lo.
    obrigada professora Marli

  4. Marli Sana disse:

    Sempre é bom ler o que Educador Celso escreve,se todos fizesse pelo menos um pouco do que aprendemos com suas leituras, a educação estaria bem melhor. Espero, sempre encontrar entrevistas com o professor Celso nesse site, parabéns para quem teve a idéia e a iniciativa de convidá-lo.
    obrigada professora Marli

  5. Tiago disse:

    Como sempre o prof. Vasconcellos nos estimula a “calibrar” o grau de nossos óculos no sentido de perceber qual é a real finalidade do que fazemos em educação. A avaliação, grande mecanismo de controle e classificação dos alunos, tem perdido sua real função quando “desfocada” de sua função primeira: ser instrumento de desenvolvimento humano, que nos permita perceber “os avanços, as dificuldades e as potencialidades” do sujeito em formação.
    Parabéns ao site por trazer esta entrevista!

  6. Marcos disse:

    Maravilhosa entrevista, que orgulho de termos esse educador e filósofo em nossa país!

  7. Mariza disse:

    Parabéns!Como sempre nos faz refletir muito!

  8. FILOMENA DE SOUZA GUERRA disse:

    Valeu! É lendo está entrevista que percebemos o quanto podemos nos melhorar!!!!

  9. Maritza Verges disse:

    O professor Celso sempre nos leva a refletir e a perceber como podemos melhorar a nossa prática. Parabéns!!!

  10. sIRLEI disse:

    Sempre gosto de tudo que o Professor Celso diz e escreve, nesses momentos reforço o que acredito em educação.

  11. Maria Helena disse:

    O professor Celso Vasconsellos leva-nos a refletir sobre a atuação do professor no processo educacional e a forma de como este educador realiza avaliações frente ao seu aprendiz. Por que classificar uma criança com números, se o que ela necessita é de expressar o que aprendeu por meio do que foi-lhe ensinado.

  12. Vasco Moretto disse:

    Prof Celso sempre brilhante e profundo em suas reflexões. Educadores como ele fazem a diferença … é uma pena que não são muitos em nosso país. Parabéns ao amigo Celso.

  13. tais disse:

    esta entrevista do professor celso é muito boa mas cabe a cada um de nos fazer a nossa parte

  14. Érika Gimenes Castiglioni disse:

    Parabéns pelos professores envolvidos nessas entrevistas. O que me chamou a atenção nessas entrevistas é que o professor está sempre adequando o currículum escolar aos games e softwares educacionais na escola, buscando assim a realidade dos alunos e também sua própria autonomia. Com isso os educandos aprendem brincando.

  15. maria leonice neves braga disse:

    Parabéns pelo texto, ajuda muita os gestores e professores no trabalho das escolas.

  16. maria leonice neves braga disse:

    Celso, voce é brilhante e fantastico na intrevista e nós professores ficamos encantados nas suas respostas que contribuiu muito na nossa formação e reflexão.

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